Nos 100 anos de Sapé, o MLLC é um dos vencedores da maior premiação de preservação do patrimônio cultural brasileiro promovido pelo Iphan.

Iphan reconhece ações de preservação da memória em comunidades tradicionais da Paraíba, com destaque para Barra de Antas (Sapé) e o Porto do Capim, em João Pessoa.

O Memorial das Ligas e Lutas Camponesas (MLLC) está localizado na comunidade tradicional de Barra de Antas, na Zona da Mata paraibana, território onde a memória camponesa das Lutas pela Terra, pela Reforma Agrária, por justiça e dignidade no campo continua viva e em constante construção. O local é o berço da formação das Ligas Camponesas na Paraíba, tendo sido palco de intensas mobilizações entre as décadas de 1950 e 1960, marcos fundamentais da luta pela Reforma Agrária no Brasil.

Em 1997, a reocupação da Fazenda Antas marcou um novo capítulo da história de luta da região, abrindo caminho para o processo de criação do Assentamento Elizabeth Teixeira, atualmente em curso junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA/PB), em 2025. A comunidade também fortalece seu vínculo com essa trajetória por meio das ações desenvolvidas junto ao Memorial, que vem alcançando reconhecimento em âmbito nacional e internacional.

Para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a iniciativa premiada, intitulada “Preservação das memórias das lutas pela terra: ações do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas na comunidade tradicional de Barra de Antas, de Sapé (PB), articula a preservação da memória histórica das Ligas Camponesas, movimento fundamental na luta pela reforma agrária no Brasil, com as lutas atuais no campo. Entre as ações estão a construção participativa de um Plano Museológico, exposições temáticas que respondem a ameaças territoriais contemporâneas, atos de memória aos mártires camponeses, semanas culturais e educativas, digitalização de acervos, projetos de história oral e a mobilização pelo tombamento federal da instituição”.

Para Alane Lima, vice-presidenta e coordenadora do MLLC, “as ações desenvolvidas vão além da preservação do patrimônio cultural elas valorizam as experiências de vida, o território e as histórias transmitidas entre gerações. Esse trabalho representa um ato de justiça histórica e coloca a comunidade tradicional de Barra de Antas no mapa nacional, ao reconhecer o protagonismo das famílias camponesas na construção de suas próprias narrativas. Esse protagonismo aparece tanto nos relatos de quem viveu o período das Ligas Camponesas quanto no engajamento dos jovens, que buscam compreender suas raízes e fortalecer sua identidade no presente”.

Os impactos dessas ações se refletem na educação patrimonial, no fortalecimento do sentimento de pertencimento e no reconhecimento das comunidades circuvizinhas como territórios históricos. Ao unir passado e presente, o Memorial reafirma que as lutas por terra, por reforma agrária, por direitos, dignidade e justiça social no campo continuam atuais.

O reconhecimento por meio da 38ª Edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade reforça a importância dessa iniciativa e representa uma conquista coletiva da classe camponesa e das comunidades do entorno. No território camponês, lembrar é resistir, e preservar a memória é construir o futuro.

A Paraíba também foi destaque na edição com a iniciativa desenvolvida no território do Porto do Capim, em João Pessoa, com o título Vivenciando Porto do Capim: Turismo de base comunitária, de João Pessoa (PB) “Pensado por coletivos locais (Jovens Garças do Sanhauá e Associação de Mulheres), o projeto oferece experiências autênticas no centro histórico de João Pessoa, conectando visitantes à história, cultura e natureza da comunidade ribeirinha. A iniciativa funciona como ferramenta de resistência territorial e geração de renda, oferecendo tours guiados pelos resquícios do antigo porto, culinária tradicional, apresentações culturais e passeios de canoa com pescadores locais, além de promover ações educativas internas como a Gincana Cultural para engajar novas gerações” enfatiza o Iphan.

Sobre a edição 2025 do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade

 “Esta foi uma edição histórica. Além do recorde de inscrições, realizamos o maior investimento da história do prêmio, contemplando mais ações do que o previsto no edital (15)”, afirmou Clara Marques, coordenadora-geral de Fomento e Economia do Patrimônio do Iphan. “Alcançamos nosso objetivo com o tema e estamos satisfeitos com os resultados: 78% das ações vencedoras foram realizadas nas regiões Norte e Nordeste; 67% em municípios do interior; 78% foram promovidas por, com e/ou para povos e comunidades tradicionais; e 61% das propostas vieram de associações, cooperativas ou grupos e coletivos não formalizados. Isso demonstra que o Iphan está fortalecendo quem realmente faz a diferença nos territórios por meio da valorização do patrimônio cultural brasileiro”, destacou.

A edição 2025 do Prêmio registrou um total de 876 projetos inscritos, dos quais 834 foram habilitados e avaliados pelas 27 comissões estaduais. Desses, 175 ações foram classificadas para a etapa nacional. Na sequência, a análise técnica e de mérito, realizada por uma comissão nacional especializada, indicou 34 finalistas, das quais 18 ações foram selecionadas como vencedoras, entre elas a de “Preservação das memórias das lutas pela terra – ações do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas na comunidade tradicional de Barra de Antas, de Sapé (PB)”.

As iniciativas premiadas representam 12 estados de todas as regiões do país, demonstrando a amplitude e a pluralidade das experiências de preservação do patrimônio cultural no Brasil. A seleção considerou critérios como relevância social e cultural, impacto comunitário, participação local, inovação, sustentabilidade das ações e efetividade na salvaguarda do patrimônio, incluindo, na fase final, defesas orais das propostas perante a comissão julgadora.

Por Weverton Rodrigues, educador do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas.